2.1. Compreender as Diferenças Culturais. Leituras
Limitações do modelo de Hofstede na educação intercultural
A teoria das dimensões culturais de Hofstede continua a ser uma influência essencial nos estudos de educação e comunicação interculturais; no entanto, investigação recente indica limitações importantes que quem educa deve reconhecer, para evitar uma dependência excessiva de modelos nacionais fixos. Uma crítica central diz respeito ao pressuposto da teoria de homogeneidade cultural dentro das fronteiras nacionais, negligenciando a crescente diversidade intranacional influenciada pela migração, pela globalização e pela variação da identidade individual. Estudos educativos recentes realçam esta questão, especialmente em salas de aula heterogéneas onde estudantes não se enquadram nos perfis culturais nacionais (Kirwa Tum Kole, 2025). Em contextos educativos, confiar excessivamente em classificações nacionais pode, sem intenção, levar à estereotipagem ou à essencialização de estudantes ("todos os estudantes chineses são coletivistas", por exemplo).
Além disso, embora o modelo de Hofstede tenha sido desenvolvido a partir de dados recolhidos na década de 1970, sobretudo de colaboradores da IBM, a sua aplicação contínua sem reflexão crítica é problemática. Cada vez mais investigadores/as questionam a sua relevância em sociedades contemporâneas e digitalizadas, onde a cultura está em constante evolução. Uma revisão sistemática recente de Ouyang et al. (2025) constatou que as dimensões de Hofstede, quando aplicadas atualmente na investigação educativa e organizacional, apresentam frequentemente baixa consistência interna e adaptabilidade limitada em contextos diversos. Isto realça o risco de má aplicação, particularmente em ambientes de aprendizagem multiculturais.
Metodologicamente, a redução da cultura a dimensões numéricas por parte de Hofstede tem sido criticada por simplificar excessivamente comportamentos sociais complexos. Komisarof e Akaliyski (2025), por exemplo, propõem uma reanálise mais nuançada do individualismo–coletivismo, decompondo-o em subdimensões como a exclusão social, a conformidade e a lealdade, questionando assim a ideia de que estes conceitos são universais ou estáticos. Estas conclusões apoiam apelos, dentro da educação, a um afastamento de enquadramentos nacionais rígidos, em direção a abordagens mais dinâmicas e centradas em quem aprende, que reflitam a hibridez cultural e a variação contextual.
Apesar das suas limitações, o modelo continua a ser aplicado em vários contextos, especialmente quando usado com consciência crítica e sensibilidade às dinâmicas locais e globais. Uma abordagem flexível e atenta ao contexto permite uma interpretação mais nuançada das dimensões culturais, refletindo a natureza complexa e em evolução da identidade numa era moldada pela migração, pela globalização e pela conectividade digital. O modelo de Hofstede pode servir como enquadramento introdutório, mas deve ser abordado de forma crítica. O ensino não deve tratar as dimensões culturais como verdades fixas, mas antes como ferramentas heurísticas que abrem a discussão sobre diversidade, identidade e poder. Como argumenta Kirwa Tum Kole (2025), a pedagogia crítica na educação intercultural deve ir além dos modelos nacionais, incorporando a aprendizagem experiencial, a análise interseccional e a investigação reflexiva.