2.2. Normas culturais e perspetivas de cada pessoa. Leituras
Interseccionalidade
Na educação, esta perspetiva realça que quem aprende nunca é definido/a por uma única característica. Pelo contrário, as suas identidades e experiências vividas formam-se através de estruturas sobrepostas de poder e desigualdade. Isto significa que estudantes não são moldados/as apenas pelo contexto cultural, mas também por uma interação complexa entre género, classe, proficiência linguística e outros marcadores sociais que afetam a forma como se relacionam com a autoridade, com os pares e com as práticas académicas (Kirwa Tum Kole, 2025). Docentes que trabalham em salas de aula diversas podem estar atentos/as a diferenças culturais, mas a identidade cultural, por si só, não explica totalmente como estudantes aprendem, participam ou se sentem incluídos/as. A identidade de género, a primeira língua, as necessidades especiais ou o estatuto socioeconómico de um/a estudante podem ampliar ou atenuar a influência das normas culturais (Holliday, 2018).
Por exemplo
Uma estudante de um contexto coletivista pode sentir tensão entre as expetativas culturais de modéstia e as expetativas institucionais de se expressar assertivamente em debates.
Um/a estudante internacional de classe trabalhadora pode valorizar o respeito por docentes, mas carecer do capital social e académico normalmente valorizado em ambientes universitários.
Um/a estudante neurodivergente, de uma cultura que valoriza a conformidade, pode ter dificuldade em defender a sua necessidade de adaptações, enfrentando uma dupla barreira de expetativas culturais e neurológicas.
Ao reconhecer explicitamente estas interseções, quem educa evita simplificar excessivamente estudantes numa única categoria de identidade. Em vez disso, pode conceber aulas inclusivas e responsivas que tenham em conta a variabilidade da experiência de estudantes e reduzam o risco de reforçar estereótipos.
Trabalho em grupo, debate e aprendizagem independente. O à-vontade com o trabalho em grupo, o debate e a aprendizagem independente varia amplamente entre culturas. Em culturas coletivistas, a colaboração e a identidade de grupo são frequentemente priorizadas em detrimento do reconhecimento individual, tornando a harmonia do grupo um objetivo fundamental (Hofstede, 2011; Alqarni, 2022). Em contrapartida, em culturas individualistas, estudantes podem preferir trabalhar sozinhos/as e valorizar a discussão competitiva. Estas preferências têm um impacto significativo na dinâmica e na participação em sala de aula, particularmente em disciplinas que valorizam o pensamento crítico e a interação entre pares.
Motivação, resolução de problemas e autoridade. A motivação para a aprendizagem, as estratégias de resolução de problemas e as respostas à autoridade de estudantes são também culturalmente influenciadas. Culturas com elevado evitamento da incerteza podem produzir estudantes que procuram instruções claras e preferem tarefas estruturadas, enquanto estudantes de culturas com baixo evitamento da incerteza podem prosperar em tarefas abertas e criativas (Hofstede, 2011). Estudantes de culturas com um forte respeito pela autoridade podem hesitar em questionar docentes. Em contraste, estudantes de culturas mais igualitárias podem sentir-se mais confortáveis a manifestar-se e a partilhar opiniões diferentes (Alqarni, 2022).