1.3. Determinar a Base de Conhecimento. Leituras

Site: Social Innovation Fund e-Learning Platform
Disciplina: Curso de formação para o desenvolvimento da competência pedagógica “Inteligência cultural na pedagogia digitalmente transformada”
Livro: 1.3. Determinar a Base de Conhecimento. Leituras
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Data: sexta-feira, 30 de outubro de 2026 às 20:47

Definir os conhecimentos prévios de estudantes

No início de cada unidade curricular, ou até no início de cada tópico, recomenda-se que docentes avaliem os conhecimentos ou competências prévias de estudantes. Esta avaliação é geralmente pequena, sem nota formal, e pode ser apresentada de forma fácil de compreender para estudantes (por exemplo, em alguns casos, pode dizer-se a estudantes que não se espera que conheçam a maior parte da informação). Quem aprende pode saber que o objetivo da avaliação é descobrir que conhecimentos e competências trazem para a sala de aula, de forma a permitir um ensino mais eficaz. Docentes podem também considerar uma reavaliação após o ensino, como medida da aprendizagem.

Definir os conhecimentos prévios de estudantes de diferentes contextos culturais exige abordagens ponderadas e culturalmente sensíveis. Antes de mais, é essencial criar um ambiente seguro e inclusivo em que estudantes se sintam confortáveis para partilhar as suas opiniões e não temam ser julgados/as, especialmente ao discutir temas potencialmente sensíveis.

Múltiplas estratégias de avaliação

Docentes podem usar múltiplas estratégias para avaliar os conhecimentos prévios de estudantes sobre a unidade curricular ou sobre cada tópico. Discussões informais, questionários e inquéritos são excelentes formas de aceder aos conhecimentos prévios de estudantes antes de iniciar um novo tópico.

As discussões informais devem ser culturalmente sensíveis. Evite perguntas culturalmente enviesadas ao organizá-las. Devem ser formuladas de forma a não favorecer uma perspetiva cultural em detrimento de outra. Deve ter-se cuidado com o uso de expressões idiomáticas, provérbios ou exemplos que possam não ser compreendidos por todos/as. Note-se que estudantes de diferentes culturas podem sentir-se de forma diferente confortáveis a falar diretamente, a participar em discussões e a expressar as suas opiniões publicamente. Os conhecimentos prévios não são apenas conhecimento de informação específica. São também as experiências, observações e formas de conhecer de estudantes, moldadas pelo seu contexto cultural. Por isso, ao formular perguntas para discussão, é também necessário contexto, para que cada estudante possa relacionar o tópico com o seu contexto cultural.

As discussões informais culturalmente sensíveis podem ser implementadas da seguinte forma:

  • Discussões em pequenos grupos: dividir estudantes em grupos mais pequenos, de 4 a 6 elementos, onde possam sentir-se mais confortáveis. Misturar cuidadosamente estudantes de diferentes contextos.

  • Pensar em pares, partilhando aspetos culturais: incentivar estudantes a discutir primeiro com alguém com quem se sintam confortáveis, que pode ser alguém de um contexto semelhante, e só depois partilhar com um grupo maior.

  • Perguntas abertas ou sugestões narrativas: em vez de perguntas diretas, usar perguntas envolventes que convidem a narrativas pessoais relacionadas com o tópico. Por exemplo: "Conte-me sobre uma vez em que viveu algo semelhante no seu país, comunidade ou família".

Os benefícios das discussões informais em grupos culturalmente diversos revelam-se através de diferentes perspetivas e interpretações de conceitos, realçando diferentes práticas e tradições culturais relacionadas com o tópico, e revelando diferentes formas de conhecer e compreender o mundo. Além disso, podem identificar-se possíveis nuances culturais que possam influenciar a aprendizagem.

Questionários. A conceção de questionários culturalmente sensíveis implica pensar no seu formato e na natureza das perguntas a fazer.

  • Se os questionários avaliarem a memorização de factos, use exemplos e contextos relacionados com diferentes culturas, ou ofereça opções que reflitam diferentes contextos. Ao usar formatos de resposta curta, convide estudantes a explicar brevemente o seu raciocínio, o que pode revelar conhecimentos ou interpretações culturalmente específicos.

  • Se forem usados questionários baseados em cenários, considere se são culturalmente neutros ou se oferecem diferentes contextos culturais para que estudantes apliquem os seus conhecimentos.

  • Se usar material visual nos questionários, inclua imagens, símbolos ou cenários que possam ser mais acessíveis a estudantes com diferentes contextos linguísticos ou experiências culturais.

Os resultados dos questionários podem mostrar os factos e conceitos específicos que estudantes já dominam; quais são os pontos fortes e fracos comuns nos seus conhecimentos, ou os equívocos comuns que precisam de ser diretamente abordados.

Inquéritos. As perguntas de inquérito desenvolvidas ajudam a reunir informação sobre certos aspetos dos conhecimentos prévios, experiências e atitudes relacionados com o tópico. Tal como com os questionários, pense no formato mais acessível e conveniente para estudantes. Os inquéritos costumam ser mais longos do que os questionários, mas é importante mantê-los concisos, respeitando o tempo de estudantes e da aula, e mantendo o foco.

Um aspeto fundamental na definição dos conhecimentos prévios com estudantes de diferentes culturas é o respeito e uma curiosidade genuína em compreender as diferentes formas de estudantes entenderem o mundo. Seja flexível, adapte os seus métodos em resposta às respostas de estudantes e reflita constantemente sobre os seus próprios enviesamentos e pressupostos.

No início do curso, discutir os conhecimentos existentes cria um ambiente de aprendizagem inclusivo, em que cada estudante sente que tem e transmite valor e os seus conhecimentos são reconhecidos como valiosos.

Como ensinar com base nos conhecimentos prévios de estudantes

Adequar os planos de ensino à compreensão existente e às lacunas de aprendizagem de estudantes é um aspeto crucial de um ensino eficaz, garantindo que a instrução é simultaneamente acessível e desafiante.

Primeiro, é necessário analisar os dados recolhidos sobre os conhecimentos prévios e a aprendizagem. Examine cuidadosamente os resultados das discussões informais, questionários, inquéritos e quaisquer avaliações diagnósticas que tenha recolhido. Depois:

  • Refletir sobre o currículo: com base nas tendências da avaliação de estudantes, quais são os erros mais comuns ou os conhecimentos/competências em falta que um grupo considerável de estudantes não têm?

  • Avaliar as necessidades individuais e de grupo: distinguir entre as lacunas de aprendizagem de toda a turma e as necessidades específicas de estudantes individuais ou de pequenos grupos culturais.

  • Considerar o contexto cultural: refletir sobre como a compreensão de estudantes pode ser influenciada pelos diferentes contextos culturais no seu país ou na sua universidade, e identificar conhecimentos ou experiências culturalmente específicos que possam ser usados ou considerados.

  • Diferenciar entre conteúdo, processo e resultado: ao adaptar a informação fornecida a estudantes, disponibilizar textos mais simples para quem tem dificuldades, e oferecer leituras mais complexas, oportunidades de investigação ou de autoaprendizagem para quem está mais avançado/a. Variar as atividades de estudantes. Oferecer opções sobre como exploram o material (por exemplo, ler, ver vídeos, realizar entrevistas). Se possível, quanto ao resultado, permitir que estudantes demonstrem a sua aprendizagem de várias formas, adequadas aos seus pontos fortes e contextos culturais (por exemplo, escrita, criação de uma apresentação, construção de modelos, evidência de investigação).

Reflexões para uma aprendizagem mais profunda

Para promover uma aprendizagem mais profunda no ensino superior, estudantes de diferentes contextos culturais precisam de refletir sobre as suas experiências e conhecimentos prévios de forma estruturada, que seja simultaneamente pessoalmente significativa e academicamente produtiva. Isto pode ser conseguido através de:

  • Criar um espaço seguro e inclusivo para a reflexão é o primeiro passo para uma aprendizagem mais profunda. Um ambiente em que estudantes se sintam seguros/as para partilhar os seus pensamentos e experiências sem receio de serem julgados/as ou estereotipados/as, e em que se realcem perspetivas diversas, enriquece a aprendizagem. 

  • Fornecer uma estrutura e um enquadramento para a reflexão que incentivem estudantes a relacionar os novos conceitos com as suas próprias histórias de vida, práticas culturais e experiências pessoais nesta universidade ou num contexto mais amplo. Esse enquadramento pode também incluir a exploração de perspetivas culturais, por exemplo através da formulação de perguntas:

  • Como poderia uma pessoa de um contexto cultural diferente abordar este problema?

  • Existem valores culturais diferentes envolvidos nas tarefas de estudo?

  • Que pressupostos deste tópico poderão ser específicos de uma cultura particular ou diferente?

A reflexão liga-se a resultados de aprendizagem mais profundos, ao refletir não só sobre os resultados alcançados, mas também sobre a forma como os conhecimentos prévios e as perspetivas culturais de estudantes podem enriquecer a sua compreensão. Promove também o pensamento crítico, a empatia e a compreensão intercultural.

Ao proporcionar oportunidades estruturadas para este tipo de reflexão culturalmente relevante, quem ensina pode ajudar estudantes a ir além de uma compreensão superficial e a desenvolver uma apreciação mais profunda, subtil e pessoalmente significativa da disciplina. Esta abordagem não só melhora a aprendizagem, como também promove uma maior consciência e respeito interculturais na comunidade de aprendizagem.