2.2. Normas culturais e perspetivas de cada pessoa. Leituras

Site: Social Innovation Fund e-Learning Platform
Disciplina: Curso de formação para o desenvolvimento da competência pedagógica “Inteligência cultural na pedagogia digitalmente transformada”
Livro: 2.2. Normas culturais e perspetivas de cada pessoa. Leituras
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Data: sexta-feira, 30 de outubro de 2026 às 20:41

Identidade cultural e visões do mundo

A identidade cultural evolui através da comunicação diária, das interações e do cumprimento de papéis sociais. Segundo Chen e Lin (2016) e Altugan (2015), a identidade cultural é um constructo multifacetado e dinâmico que abrange as crenças, os valores, as tradições e as práticas partilhadas de um grupo. Constitui um elemento fundamental da identidade pessoal e da pertença social. Influenciada por fatores como a etnia, a nacionalidade, a língua, a religião e o contexto socioeconómico, a identidade cultural molda significativamente a forma como os indivíduos se veem a si próprios e aos seus papéis na sociedade. As perspetivas de estudantes sobre o sucesso académico, o feedback e a aquisição de conhecimentos e competências são moldadas por modelos culturais de aprendizagem e de autoridade. 

Por exemplo

Por exemplo, estudantes de cultura confucionista podem associar o sucesso académico à diligência, à memorização e ao ensino guiado por docentes, enquanto estudantes de culturas ocidentais podem valorizar a originalidade, a crítica e a autoexpressão (Hofstede, 2011). 

Nalgumas culturas, espera-se que o feedback seja indireto para preservar a harmonia; noutras, o feedback direto e crítico é considerado essencial para o crescimento (Gálvez-López, 2023). A Teoria da Identidade Social e a Teoria do Capital Cultural oferecem perspetivas valiosas sobre como a identidade cultural influencia as experiências educativas de estudantes. A Teoria da Identidade Social explica que o alinhamento de estudantes com os seus grupos culturais afeta o seu sentido de pertença e a sua motivação na escola, fatores-chave para o sucesso académico (Tajfel & Turner, 1986). Isto realça a necessidade de salas de aula inclusivas que afirmem identidades diversas. 

A Teoria do Capital Cultural, introduzida por Bourdieu (1986), revela como as diferenças nos recursos culturais de estudantes, como a língua, as normas ou as ligações sociais, podem criar desigualdades sistémicas. Reconhecer e valorizar estas diversas formas de capital permite a docentes conceber ambientes de aprendizagem mais equitativos. Estas teorias realçam a importância do ensino culturalmente responsivo e da reflexão institucional, para garantir que todos/as os/as estudantes são apoiados/as e capacitados/as.

Interseccionalidade

A interseccionalidade é um enquadramento para compreender como múltiplos aspetos da identidade de uma pessoa - como a cultura, a raça, o género, a língua, a religião, a capacidade, a idade e o estatuto socioeconómico - interagem para moldar as suas experiências, oportunidades e desafios (Crenshaw, 1989).

Na educação, esta perspetiva realça que quem aprende nunca é definido/a por uma única característica. Pelo contrário, as suas identidades e experiências vividas formam-se através de estruturas sobrepostas de poder e desigualdade. Isto significa que estudantes não são moldados/as apenas pelo contexto cultural, mas também por uma interação complexa entre género, classe, proficiência linguística e outros marcadores sociais que afetam a forma como se relacionam com a autoridade, com os pares e com as práticas académicas (Kirwa Tum Kole, 2025). Docentes que trabalham em salas de aula diversas podem estar atentos/as a diferenças culturais, mas a identidade cultural, por si só, não explica totalmente como estudantes aprendem, participam ou se sentem incluídos/as. A identidade de género, a primeira língua, as necessidades especiais ou o estatuto socioeconómico de um/a estudante podem ampliar ou atenuar a influência das normas culturais (Holliday, 2018). 

Por exemplo

Uma estudante de um contexto coletivista pode sentir tensão entre as expetativas culturais de modéstia e as expetativas institucionais de se expressar assertivamente em debates.

Um/a estudante internacional de classe trabalhadora pode valorizar o respeito por docentes, mas carecer do capital social e académico normalmente valorizado em ambientes universitários.

Um/a estudante neurodivergente, de uma cultura que valoriza a conformidade, pode ter dificuldade em defender a sua necessidade de adaptações, enfrentando uma dupla barreira de expetativas culturais e neurológicas.

Ao reconhecer explicitamente estas interseções, quem educa evita simplificar excessivamente estudantes numa única categoria de identidade. Em vez disso, pode conceber aulas inclusivas e responsivas que tenham em conta a variabilidade da experiência de estudantes e reduzam o risco de reforçar estereótipos.

Trabalho em grupo, debate e aprendizagem independente. O à-vontade com o trabalho em grupo, o debate e a aprendizagem independente varia amplamente entre culturas. Em culturas coletivistas, a colaboração e a identidade de grupo são frequentemente priorizadas em detrimento do reconhecimento individual, tornando a harmonia do grupo um objetivo fundamental (Hofstede, 2011; Alqarni, 2022). Em contrapartida, em culturas individualistas, estudantes podem preferir trabalhar sozinhos/as e valorizar a discussão competitiva. Estas preferências têm um impacto significativo na dinâmica e na participação em sala de aula, particularmente em disciplinas que valorizam o pensamento crítico e a interação entre pares.

Motivação, resolução de problemas e autoridade. A motivação para a aprendizagem, as estratégias de resolução de problemas e as respostas à autoridade de estudantes são também culturalmente influenciadas. Culturas com elevado evitamento da incerteza podem produzir estudantes que procuram instruções claras e preferem tarefas estruturadas, enquanto estudantes de culturas com baixo evitamento da incerteza podem prosperar em tarefas abertas e criativas (Hofstede, 2011). Estudantes de culturas com um forte respeito pela autoridade podem hesitar em questionar docentes. Em contraste, estudantes de culturas mais igualitárias podem sentir-se mais confortáveis a manifestar-se e a partilhar opiniões diferentes (Alqarni, 2022).

Incentivar a reflexão e o diálogo

Para promover uma compreensão intercultural mais profunda, docentes devem incentivar estudantes a refletir sobre a forma como o seu contexto cultural molda a sua aprendizagem. Atividades de autorreflexão, diários de aprendizagem e entrevistas entre pares podem ajudar estudantes a identificar os seus próprios pressupostos e preferências culturais. Em paralelo, docentes devem dialogar com estudantes de diferentes contextos culturais, não só para os/as apoiar de forma mais eficaz, mas também para co construir práticas de ensino inclusivas.

Aprendizagem autodirigida. Os contextos culturais também moldam as atitudes perante a aprendizagem autodirigida. Um estudo comparativo entre estudantes universitários/as britânicos/as e de Hong Kong encontrou diferenças significativas: por exemplo, estudantes do Reino Unido tendiam a encarar a aprendizagem independente como uma responsabilidade pessoal, enquanto estudantes de Hong Kong recorriam frequentemente a estruturas de aprendizagem guiada e a normas de estudo comunitárias. (Lo, 2024)

Identificar diferenças culturais nas abordagens de aprendizagem de estudantes. À medida que as salas de aula se tornam cada vez mais diversas, docentes devem estar equipados/as para reconhecer e responder a variações culturais nas abordagens cognitivas e comportamentais de estudantes à aprendizagem. Esta secção apresenta estratégias práticas para docentes identificarem diferenças culturais nos estilos de resolução de problemas, na motivação para a aprendizagem e nas reações à autoridade, dimensões profundamente influenciadas pelo contexto cultural.

Estratégias de resolução de problemas

Estudantes de culturas coletivistas sentem-se frequentemente mais confortáveis a trabalhar em grupo e a tomar decisões em conjunto, em vez de se destacarem com opiniões próprias. Em contraste, estudantes de culturas individualistas adotam frequentemente abordagens mais analíticas e independentes (Smith et al., 2022).

Estratégias para docentes:

  • Usar tarefas abertas no início do semestre e observar se estudantes tendem a recorrer à colaboração em grupo ou à resolução individual de problemas. 

  • Oferecer formatos variados (por exemplo, tarefas individuais vs. em equipa) e monitorizar o envolvimento e o desempenho de estudantes em cada um. 

  • Realizar diários reflexivos ou pequenos inquéritos, perguntando a estudantes como abordam habitualmente tarefas complexas.

Exemplo

Numa sala de aula mista, uma tarefa de grupo revela que alguns/algumas estudantes esperam pelo consenso antes de propor soluções. O/A docente regista isto e, mais tarde, junta estudantes em dias interculturais para apoiar a aprendizagem entre pares.

Motivação para a aprendizagem. Estudantes de contextos do Leste Asiático ou do Sul da Ásia podem ser motivados/as pelas expetativas familiares e pela validação externa, enquanto estudantes ocidentais podem priorizar interesses pessoais e objetivos intrínsecos (Wang, 2024; Alqarni, 2022; Lo, 2024).

Estratégias para docentes:

  • Incluir um diagnóstico motivacional no início da unidade curricular (por exemplo, "O que o/a ajuda a ter sucesso nos seus estudos?").

  • Acompanhar a participação e o comportamento de procura de ajuda. Estudantes com forte motivação extrínseca podem hesitar em pedir ajuda para evitar "perder a face". 

  • Introduzir escolha nos trabalhos (por exemplo, seleção de tópicos) e depois analisar as decisões e o feedback de estudantes em busca de indícios motivacionais.

Exemplo


Um/a estudante de Hong Kong entrega consistentemente trabalhos muito detalhados, mas tende a evitar as discussões em aula. Após um inquérito motivacional, o/a docente descobre que este/a estudante é motivado/a pela honra familiar, o que o/a leva a dar mais feedback privado do que crítica pública.

Resposta à autoridade. Estudantes de culturas com elevada distância hierárquica (por exemplo, Indonésia, Nigéria) podem deferir a docentes e evitar questionar instruções. Estudantes de culturas com baixa distância hierárquica (por exemplo, Alemanha, Países Baixos) podem desafiar ou questionar abertamente (Hofstede, 2011). Estratégias para docentes:

  • Durante as sessões de perguntas e respostas, prestar atenção a quem faz perguntas ou expressa opiniões diferentes. Nota-se algum padrão cultural?

  • Usar ferramentas de feedback anónimo, como sondagens digitais ou caixas de sugestões, para incentivar o contributo de estudantes mais reticentes. 

  • Tornar as expetativas da sala de aula explícitas: explicar que questionar ou discordar respeitosamente é bem-vindo.

Exemplo


Num seminário baseado em discussão, estudantes de contextos de elevada distância hierárquica tendem a permanecer em silêncio. O/A docente implementa um mural de comentários online anónimo e observa um maior envolvimento por parte destes/as estudantes, ganhando acesso às suas perspetivas.

Incentivar a Autorreflexão de Estudantes‑sobre Influências Culturais. A autorreflexão é uma ferramenta pedagógica poderosa que ajuda estudantes a tomar consciência de como o seu contexto cultural molda a sua abordagem à aprendizagem. Ao envolverem-se numa reflexão orientada, estudantes podem examinar criticamente as suas crenças, motivações e estilos de aprendizagem preferidos, relacionando-os com a sua herança cultural.

Fundamentação teórica. Wang (2024) constatou que fatores culturais, incluindo padrões de comunicação, expetativas familiares e normas de aprendizagem, influenciam significativamente o envolvimento e os estilos de aprendizagem de estudantes. Além disso, estratégias de aprendizagem culturalmente responsivas e autorreguladas promovem a motivação de estudantes quando estes/as percecionam as tarefas de aprendizagem como pessoal e culturalmente relevantes.

Atividades de reflexão estruturada

  • Estudantes podem manter diários pessoais onde exploram questões como "De que forma os meus valores culturais afetam a forma como abordo o trabalho em grupo?" ou "Quando me sinto mais motivado/a e porquê?". Estes diários permitem identificar preferências culturais, por exemplo, expressão mais oral vs. escrita, ajudando docentes a compreender o contexto de cada estudante.

  • Usar modelos estruturados, como o Ciclo Reflexivo de Gibbs (descrição, sentimentos, avaliação, análise, conclusão, plano de ação) (The University of Edinburgh. Reflection toolkit, s.d.), para orientar a reflexão, por exemplo, depois de um projeto de grupo, perguntar: "O que aconteceu? Como é que a cultura moldou a forma como trabalhámos em conjunto?" 

  • Incentivar um diálogo contínuo entre docente e estudante através de diários. Estudantes refletem sobre as suas experiências e recebem um apoio pedagógico do/a docente que os/as ajuda a reconhecer influências culturais na aprendizagem (por exemplo, preferência por tarefas coletivas vs. individuais).

O papel do/a docente e a reflexão. Além da reflexão de estudantes, docentes devem refletir sobre os seus próprios pressupostos culturais implícitos, usando ferramentas como a Ferramenta de Autorreflexão para Docentes sobre Currículos Culturalmente Sensíveis, ou modelos de reflexão crítica no ensino culturalmente responsivo. Esta dupla reflexão apoia práticas de ensino mais inclusivas, uma vez que docentes podem ajustar os seus métodos para responder a diferentes abordagens culturais à aprendizagem.