2.5. Fatores que moldam comportamentos e perspetivas culturais. Leituras
| Site: | Social Innovation Fund e-Learning Platform |
| Disciplina: | Curso de formação para o desenvolvimento da competência pedagógica “Inteligência cultural na pedagogia digitalmente transformada” |
| Livro: | 2.5. Fatores que moldam comportamentos e perspetivas culturais. Leituras |
| Impresso por: | Guest user |
| Data: | sexta-feira, 30 de outubro de 2026 às 20:40 |
Implicações para o ensino no ensino superior
Os comportamentos e as perspetivas culturais não são inatos, mas emergem de processos históricos, sociais e ambientais de longa data. Por exemplo, comunidades moldadas por histórias coloniais ou por traumas coletivos podem valorizar a coesão de grupo, a confiança na autoridade e a resiliência - traços que influenciam as interações de estudantes em sala de aula, como o respeito por docentes ou a relutância em desafiar ideias (Bernard, 2024; Dhiman, 2025). A Teoria dos Sistemas Ecológicos de Bronfenbrenner oferece um enquadramento útil: o macrossistema (normas culturais) e o cronossistema (mudança histórica) interagem com os microssistemas de estudantes (família, escola), produzindo atitudes e comportamentos de aprendizagem distintos (Bronfenbrenner, 1979). Estruturas sociais, como a estratificação socioeconómica, influenciam também as perspetivas culturais. Hussaini & Hussain (2023) constataram que ambientes rurais ou economicamente limitados prejudicam o desempenho académico, não só devido à falta de recursos, mas também por promoverem uma mentalidade cultural que valoriza competências práticas em detrimento da educação formal. As influências da família, dos pares, da religião e das instituições transmitem valores e expetativas educativas ao longo das gerações. O ambiente físico também desempenha um papel. Estudantes em contextos urbanos podem estar habituados/as à competição e à aprendizagem baseada na inovação, enquanto estudantes em regiões rurais ou com desafios climáticos podem favorecer abordagens cooperativas e orientadas pelo contexto (Hussaini & Hussain, 2023). A adaptação a estes ambientes molda as motivações, os estilos de aprendizagem e os mecanismos de resposta.
Para apoiar populações estudantis culturalmente diversas, docentes do ensino superior podem integrar práticas culturalmente responsivas na conceção curricular, nas estratégias de ensino e nos métodos de avaliação. Cada abordagem garante que as histórias culturais e as normas de comunicação de estudantes são reconhecidas e respeitadas.
Conceção curricular
Mapeamento histórico-cultural. Peça a estudantes que reflitam sobre as suas histórias pessoais e familiares - como experiências migratórias, resiliência ambiental ou tradições de aprendizagem intergeracional - e partilhem-nas através de reflexões escritas ou discussões em aula. Este exercício incentiva a autoconsciência e a compreensão entre pares de contextos de aprendizagem diversos
Exemplo
Numa unidade curricular de geografia, estudantes completam um trabalho de "mapa cultural", traçando de que forma a localização, o clima e a migração da sua família influenciaram as oportunidades educativas e as normas de aprendizagem. Isto é discutido em aula, para ilustrar diferenças no raciocínio espacial e na transmissão de conhecimento (Duxbury et al., 2015).
Integre histórias locais, estudos de caso ecológicos e questões comunitárias, para validar as experiências vividas’ de estudantes (Nelson-Barber & Trumbull, 2019). Considere o impacto de macrossistemas e exossistemas, como as políticas nacionais, na preparação e na resiliência de estudantes. Use o enquadramento de Bronfenbrenner para situar o conteúdo dentro de narrativas sociais e históricas mais amplas.
Estratégias de ensino
Estudantes de culturas hierárquicas podem hesitar em participar em debates. Ofereça permissão explícita para discordar e enquadre a discordância como uma ferramenta de aprendizagem.
Exemplo
Num seminário de ciência política, o/a docente começa por dizer: "Nesta aula, é aceitável, e incentivado, discordar educadamente. Pode dizer: 'Compreendo o seu ponto de vista, mas tenho curiosidade sobre...' ou 'Compreendo, no entanto...'." Esta estrutura apoia estudantes pouco habituados/as à discordância aberta.
Estudantes de culturas coletivistas prosperam em papéis partilhados e estruturas cooperativas. Atividades de resolução de problemas baseadas em grupo podem promover o envolvimento e a eficácia da aprendizagem.
Exemplo
Numa unidade curricular de gestão, estudantes trabalham em equipas multiculturais, assumindo papéis como facilitador/a, relator/a e apresentador/a. Esta estrutura de equipa é apoiada de forma a garantir um contributo equitativo, e recorre à reflexão entre pares para validar a conquista coletiva.
Práticas de avaliação
Use avaliações que reconheçam contributos tanto individuais como de grupo, refletindo valores culturais diversos em torno da autonomia e do coletivismo.
Exemplos
Um projeto final em estudos urbanos é avaliado em 60% pela reflexão individual e 40% pela apresentação em grupo. Isto garante uma representação academicamente equitativa tanto para estudantes que preferem trabalhar sozinhos/as como para os/as que favorecem o trabalho em equipa (Adler & Gundersen, 2008). Estudantes de tradições orais ou coletivas podem destacar-se em formatos verbais ou criativos. Oferecer múltiplas formas de demonstrar a aprendizagem acomoda estas preferências.
Numa unidade curricular de literatura, estudantes podem optar por escrever um ensaio reflexivo, contar uma história oralmente ou criar uma narrativa ilustrada, permitindo uma expressão culturalmente responsiva alinhada com o seu contexto. Grelhas de avaliação com exemplos incorporados e etapas de avaliação ajudam estudantes a compreender as expetativas e reduzem a incompreensão cultural.
Uma grelha de avaliação para um trabalho de investigação inclui critérios com "exemplares" específicos (por exemplo, "Um trabalho excelente explica o contexto do estudo e cita 5 ou mais fontes credíveis"). Pontos de verificação a meio do semestre permitem feedback formativo e revisões orientadas pela grelha.
Normas culturais na educação: memorização vs. pensamento crítico
A aprendizagem por memorização, que consiste em memorizar informação através da repetição, está profundamente enraizada em muitas tradições educativas, particularmente em partes da Ásia e do Médio Oriente. (Dreher et al., 2021). A investigação mostra que, embora as técnicas de memorização possam apoiar a recordação factual, conduzem frequentemente a uma compreensão superficial e a uma menor capacidade de resolução independente de problemas em contextos de ensino superior. Por exemplo, num inquérito a estudantes universitários/as paquistaneses/as, a aprendizagem por memorização correlacionou-se com um desempenho mais baixo em tarefas analíticas do que entre pares que usavam estratégias de aprendizagem profunda. (Ahmed & Ahmad, 2017). Estudantes de tradições de memorização participam frequentemente com cautela em seminários, fazendo menos perguntas e aguardando confirmação antes de expressar ideias. Docentes ocidentais podem percecionar estes/as estudantes como desmotivados/as, sem reconhecer as suas preferências culturais de aprendizagem. Em contrapartida, estudantes de contextos de pensamento crítico podem dominar as discussões, ofuscando sem intenção colegas formados/as em modos de aprendizagem coletivos ou estruturados. (Dreher et al., 2021).
Exemplo
Numa aula de engenharia, estudantes habituados/as a memorizar informação tiveram dificuldade em adaptar-se à aprendizagem baseada em problemas. Para os/as ajudar, o/a docente criou "módulos de pensamento crítico" que guiavam estudantes, passo a passo, através de casos reais de problemas mecânicos. Estudantes tinham de encontrar a causa, pensar em possíveis soluções e explicar o seu raciocínio por escrito. Com o tempo, mesmo os/as que preferiam memorizar começaram a pensar de forma mais profunda e a ganhar mais confiança com tarefas abertas.
Facilitar ligações culturais através da discussão académica
Um dos pilares do ensino culturalmente responsivo é permitir que estudantes vejam as suas próprias experiências refletidas no conteúdo da unidade curricular. G. Gay (2010) realça que, quando o conteúdo académico é ligado às experiências de vida real de estudantes e às suas formas culturais de compreender o mundo, torna-se mais envolvente, significativo e mais fácil de compreender e reter. Alinhar o ensino com os contextos de estudantes reforça tanto o seu interesse como os seus resultados de aprendizagem.
Incentivar o diálogo aberto sobre normas culturais. Disponibilizar um espaço estruturado para que estudantes discutam de que forma as normas culturais moldam a aprendizagem incentiva a reflexão crítica e a competência intercultural. Numa aula de estudos de comunicação, poderia perguntar: "De que forma as tradições narrativas da sua cultura afetam a maneira como interpreta notícias ou mensagens dos média?" Estudantes podem partilhar e refletir em pequenos grupos, antes de se reagruparem para uma discussão mais alargada.
Criar módulos onde estudantes tragam à superfície recursos culturais, por exemplo através da elicitação por fotografia ou da reflexão em portefólio, permite uma integração profunda da identidade nas disciplinas académicas. Numa aula de física, estudantes poderiam trazer fotografias ou objetos que representem de que forma a sua herança cultural informa a sua curiosidade científica, incorporando narrativas pessoais na aprendizagem específica da disciplina.
Apoio cultural no ensino superior
Identificar potenciais desafios. Falantes não nativos/as enfrentam frequentemente barreiras linguísticas que dificultam a compreensão das aulas, a participação e a competência de escrita, afetando tanto o progresso académico como a integração social. Além disso, estudantes pouco familiarizados/as com as normas académicas locais podem ter dificuldades com formatos de trabalhos ou com práticas de envolvimento crítico.
Recursos e estratégias direcionados. Investigação da Universidade de Michigan sobre apoio linguístico e ensino inclusivo mostra que instruções simplificadas e claras melhoram a compreensão sem comprometer o rigor académico (Kebede, 2025). Estratégias como o Ensino Protegido (Sheltered Instruction): usar recursos visuais, apoio estruturado e linguagem acessível pode ajudar estudantes a adaptar-se gradualmente ao discurso académico convencional. Por exemplo, em aulas de química, docentes disponibilizam diapositivos anotados e glossários de termos técnicos. Sessões de grupo lideradas por pares para rever a matéria, ajudando todos/as a compreendê-la melhor.
Orientação clara sobre a estrutura e o género dos trabalhos, usando explicações, modelos e exemplares, para resolver a confusão sentida por quem vem de tradições de escrita diferentes. Por exemplo, uma unidade curricular de economia usa uma "oficina de escrita" de uma semana, em que estudantes analisam um ensaio-modelo e co-criam uma lista de verificação que cobre a estrutura argumentativa, as normas de citação e questões de análise crítica. Programas de mentoria entre pares e de instrução suplementar têm-se revelado eficazes na redução do abandono e no reforço do sucesso de estudantes sub-representados/as e não nativos/as (Sriram & Anburaj, 2024).
Estudos sobre adaptação cultural mostram que o apoio de pares e do pessoal reforça significativamente a confiança e a persistência académicas (Olagunju et al., 2024). A inclusão de sessões de acolhimento e de fóruns interculturais promove o sentido de pertença. Por exemplo, um departamento organiza um evento de "perspetivas culturais", em que estudantes internacionais partilham as suas tradições educativas e estratégias de aprendizagem em sessões em pequenos grupos, ajudando todos/as os/as participantes a reconhecer pontos fortes e abordagens diversas.