3.1. Envolvimento Intercultural. Leituras

Site: Social Innovation Fund e-Learning Platform
Disciplina: Curso de formação para o desenvolvimento da competência pedagógica “Inteligência cultural na pedagogia digitalmente transformada”
Livro: 3.1. Envolvimento Intercultural. Leituras
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Data: sexta-feira, 30 de outubro de 2026 às 20:44

O que é o Envolvimento Intercultural?

O envolvimento intercultural é a capacidade de reconhecer, compreender e respeitar diferenças culturais ao interagir com pessoas provenientes de diferentes contextos culturais.

Implica abertura para desenvolver competências, conhecimentos e atitudes que permitam comunicar, cooperar e construir relações de forma eficaz em contextos interculturais. Por outras palavras, a competência intercultural descreve o envolvimento eficaz e adequado de uma pessoa com as diferenças culturais.

Quais são os benefícios do envolvimento intercultural na educação?

Em 2006, a UNESCO publicou as "Diretrizes sobre Educação Intercultural". Estas diretrizes devem ser vistas como um recurso prático valioso para docentes, para quem aprende, para quem desenvolve currículos, para decisores políticos e para membros da comunidade, e para todas as pessoas que pretendam promover a Educação Intercultural em prol da paz e da compreensão. A publicação assenta essencialmente em três princípios:

Princípio I: a Educação Intercultural respeita a identidade cultural de quem aprende, através da oferta de um ensino de qualidade, culturalmente adequado e responsivo, para todos/as.

Princípio II: a Educação Intercultural fornece a cada pessoa que aprende os conhecimentos, atitudes e competências culturais necessários para alcançar uma participação ativa e plena na sociedade.

Princípio III: a Educação Intercultural fornece a todas as pessoas que aprendem conhecimentos, atitudes e competências culturais que lhes permitem contribuir para o respeito, a compreensão e a solidariedade entre indivíduos, grupos étnicos, sociais, culturais e religiosos, e entre nações.

No ensino superior, a investigação tem mostrado que os encontros interculturais não aumentam automaticamente a competência intercultural. A diversidade cultural entre estudantes não conduz necessariamente a contacto intercultural nem a experiências de aprendizagem intercultural de estudantes. Docentes têm a responsabilidade de incentivar estudantes a refletir sobre experiências sociais individuais e coletivas com pessoas de outras culturas. Por outras palavras: hoje em dia, a comunidade docente precisa de ser capazes de introduzir os princípios da pedagogia intercultural no processo de ensino e aprendizagem, o que, por sua vez, implica que tenha desenvolvido a sua própria competência intercultural e global.

Além disso, as instituições de ensino superior estão cada vez mais conscientes de que se espera que a comunidade estudantil - não apenas quem estuda no seu próprio país num ambiente multicultural, mas também quem participa em programas de mobilidade ou estuda no estrangeiro - adquira competência intercultural. Desenvolver possibilidades de aprendizagem intercultural benéficas para todos/as os/as estudantes deve ser a primeira questão a considerar. Isto é importante porque qualquer diplomado/a precisará de estar preparado/a para atuar numa sociedade global como profissionais e membros de uma cidadania global, quer opte por trabalhar no seu país, quer no estrangeiro. A ideia central é globalizar o currículo convencional e os objetivos de aprendizagem. A internacionalização do currículo oferece um enquadramento que ajuda todos/as os/as estudantes - tanto quem têm mobilidade como quem não têm - a transformar a sua exposição a uma educação internacional em competência intercultural.

De facto, a investigação atual confirma que estereótipos e preconceitos podem ser reforçados se a experiência de incidentes críticos em contextos interculturais não for avaliada eficazmente, a nível cognitivo, afetivo e comportamental. Esta reflexão pode conduzir à competência intercultural, "uma mudança duradoura nos conhecimentos, atitudes e competências de uma pessoa, que permite uma interação positiva e eficaz com membros de outras culturas" (Otten, 2003, p.15).

A formação intercultural procura ampliar o conhecimento das pessoas sobre a sua própria cultura e as culturas de outras pessoas, influenciar as suas atitudes perante culturas estrangeiras, e desenvolver as suas competências para interagir eficazmente com pessoas de diferentes contextos culturais, bem como estratégias que apoiem o desenvolvimento de uma mentalidade crítica para atribuir significado a essas experiências.

O que se espera de docentes relativamente ao envolvimento intercultural?

Num contexto académico, docentes não podem deixar de usar a diversidade como recurso nas suas aulas, ao mesmo tempo que procuram criar um ambiente educativo inclusivo. Por exemplo, devem integrar nas suas aulas diferentes perspetivas, autores/as e acontecimentos históricos, garantindo que estudantes se revejam nos materiais utilizados. Espera-se que docentes tenham formação para interações interculturais e sejam capazes de integrar as experiências de estudantes no seu desenvolvimento profissional. A promoção da competência intercultural de futuros/as docentes, no âmbito da interação pedagógica, representa uma abordagem inovadora, destinada a reforçar a competência profissional de diplomados/as universitários/as.

Esta abordagem realça os valores partilhados nos diálogos interculturais e sublinha a tolerância como fundamental para a interação social humana. Prepara docentes para navegarem eficazmente por contextos culturais diversos, transcendendo as suas próprias fronteiras culturais, para se envolverem de forma construtiva onde os valores, as atitudes e as normas diferem. Central a esta competência é a capacidade de docentes para compreender e respeitar a diversidade cultural, interpretando a informação de forma contextual e promovendo o diálogo com base num significado pessoal. A competência intercultural abrange perceber, compreender, apropriar-se e analisar acontecimentos através de prismas culturais. Envolve aspetos motivacionais, mantendo o interesse na aprendizagem de línguas e culturas estrangeiras, dimensões cognitivas na aquisição de conhecimentos profissionais para interações interculturais, competências operacionais em contextos interculturais práticos, capacidades reflexivas de autorreflexão e crescimento pessoal, e qualidades integrativo-pessoais que cultivam uma identidade linguística secundária. Contribui também para a preparação de estudantes para a vida em comunidade, para o seu desenvolvimento como cidadãos/ãs democráticos/as e para a sua capacidade de participação cívica.

Como podem docentes ter formação em competências interculturais?

Um relatório do projeto INNO4DIV do JRC, financiado pela Comissão Europeia, foi publicado em 2022 e define boas práticas para inspirar quem educa em contextos interculturais. Após analisar 21 casos inovadores, o relatório apresenta nove componentes-chave para o desenvolvimento da Competência Intercultural e Democrática na formação de docentes:

1. Compreensão comum da Competência Intercultural e Democrática, da interculturalidade, da diversidade cultural, dos valores europeus e da ética da dignidade humana: o primeiro destes componentes centra-se na compreensão comum do que significa a competência intercultural e democrática.

2. Políticas educativas de apoio que contribuam para o desenvolvimento de parcerias sustentáveis entre diferentes partes interessadas: o segundo componente-chave refere-se às parcerias que as partes interessadas na educação estabelecem entre si, dando origem a redes profissionais e comunidades de prática.

3. Formação inicial de docentes eficaz, baseada no conhecimento experiencial, no pensamento crítico e na aprendizagem significativa: este componente diz respeito a garantir que docentes contactam com a diversidade já durante a sua própria formação.

4. Desenvolvimento profissional contínuo de docentes, com programas e projetos de elevada qualidade em Competência Intercultural e Democrática que incorporam a diversidade cultural como recurso para a aprendizagem e o ensino, o que constitui a experiência direta de docentes com a interculturalidade.

5. Modelo curricular culturalmente responsivo, transversal e flexível, baseado na multiperspetividade e numa abordagem holística: este componente centra-se em despoletar o pensamento intercultural através de um currículo culturalmente responsivo.