3.5. Esclarecer mal-entendidos. Leituras

Site: Social Innovation Fund e-Learning Platform
Disciplina: Curso de formação para o desenvolvimento da competência pedagógica “Inteligência cultural na pedagogia digitalmente transformada”
Livro: 3.5. Esclarecer mal-entendidos. Leituras
Impresso por: Guest user
Data: sexta-feira, 30 de outubro de 2026 às 20:40

Como surgem os mal-entendidos?

Investigadores/as têm desenvolvido uma grande diversidade de abordagens e teorias sobre como alcançar uma comunicação eficiente e autêntica. Podem estabelecer-se, com base nisso, algumas regras e princípios fundamentais. A primeira regra é que o essencial para uma boa comunicação é a qualidade da relação entre as pessoas envolvidas nessa comunicação. Trata-se de uma questão de capacidade para criar um contexto relacional que facilite a expressão e a recetividade.

Como segunda regra, para que a comunicação seja eficaz e de elevada qualidade, é necessário escutar, observar, analisar, expressar-se e controlar. Escutar significa ter em conta o ponto de vista da outra pessoa, demonstrando interesse verbal ou não-verbalmente; observar e analisar, de forma a compreender a parte explícita e implícita da comunicação, de acordo com as componentes psicológicas e sociais das pessoas envolvidas na comunicação; expressar-se de acordo com a pessoa com quem se fala e a natureza do tema da comunicação; controlar através do feedback dado à mensagem. 

Uma terceira regra é crucial: toda a comunicação ocorre num contexto psicológico, que é sempre também um contexto social e ideológico. O papel e o peso das normas sociais, das representações sociais e dos valores de referência são consideráveis. A comunicação deve ser sempre estudada e compreendida em termos da interação entre três tipos de fatores: psicológicos, cognitivos e sociais.

É sabido que a relutância, ou mesmo o medo, sempre fizeram parte das interações humanas, conduzindo inevitavelmente a interpretações e compreensões erradas. Em qualquer encontro, os mal-entendidos ocorrem frequentemente porque a nossa própria cultura influencia fortemente a forma como percecionamos as intenções de outras pessoas. Ao rejeitar a alteridade, as pessoas procuram proteger-se de uma forma de ameaça relativamente a valores, formas de vida ou identidades que lhes são familiares. A investigação sobre o racismo mostra que houve uma mudança substancial na definição deste conceito. Já não se trata de uma questão de inferioridade biológica, física ou intelectual, mas de uma incompatibilidade entre especificidades culturais, nacionais, religiosas e étnicas. Esta nova definição de racismo insiste no facto de que as diferenças do grupo minoritário podem ser vistas como uma ameaça para o grupo dominante. No contexto educativo, docentes devem aprender a refletir sobre as suas próprias crenças, valores e atitudes, e a evitar uma avaliação etnocêntrica das situações de mal-entendido entre estudantes.

O que acontece no contexto do ensino superior?

Inicialmente, docentes podem hesitar entre duas atitudes diferentes a adotar perante ocorrências em sala de aula. Podem reagir com base num tratamento igual de ambas as partes do problema, tentando não realçar a identidade do/a estudante migrante. Mas este método revela-se totalmente irrealista. Docentes precisam de abordar todos os diferentes códigos culturais de estudantes e estar conscientes de que prevenir e gerir mal-entendidos será uma tarefa difícil. 

De facto, esses mal-entendidos podem até estender-se a outras questões sociais, como as relações de género, a socialização, a religião, e ocorrer tanto na comunicação verbal como na não-verbal.

Estratégias de Comunicação Intercultural

Para promover uma comunicação inclusiva e eficaz em contextos culturalmente diversos, docentes podem adotar as seguintes estratégias:

  • Falar mais devagar do que o habitual, para garantir clareza e dar tempo para o processamento.

  • Praticar a escuta ativa, demonstrando interesse genuíno e atenção às perspetivas de outras pessoas.

  • Evitar suposições ou generalizações baseadas na cultura dominante ou no próprio enquadramento cultural.

  • Simplificar a informação, usando frases curtas e concentrando-se nas mensagens-chave.

  • Repetir as mensagens-chave, para reforçar a compreensão e a retenção.

  • Apoiar a comunicação oral com materiais escritos e visuais sempre que possível.

  • Traduzir informação essencial para outras línguas quando relevante e viável, especialmente em conteúdos administrativos ou relacionados com a avaliação.

Conselhos que docentes podem dar a estudantes para gerir a diferença cultural:

  • Mantenha a mente aberta: acolha novas perspetivas e práticas sem julgamento.

  • Observe e faça perguntas: aprenda observando a população local e fazendo perguntas sempre que se sentir inseguro/a.

  • Aprenda a língua: mesmo uma compreensão básica da língua local pode tornar a sua adaptação mais fácil.

  • Ligue-se a colegas: juntar-se a grupos de estudantes internacionais pode oferecer apoio e experiências partilhadas.

  • Envolva-se no intercâmbio cultural: participe em eventos e atividades locais, para se imergir na cultura.

Causas externas de mal-entendidos

Outros elementos podem conduzir a mal-entendidos, como a propaganda, a desinformação e as notícias falsas. Estes termos são usados para designar um conjunto de formas pelas quais a partilha de informação causa dano, intencional ou não intencionalmente. Embora nenhum destes fenómenos seja novo, ganharam um novo significado nas últimas décadas, com o desenvolvimento de um leque extenso de formas sofisticadas de tecnologia de informação e comunicação. 

Para dar uma breve definição destes termos, segundo o Conselho da Europa: 

  • A propaganda é informação intencionalmente criada e distribuída para influenciar a forma de pensar ou de agir das pessoas, geralmente em apoio de uma agenda política ou ideológica. A propaganda pode conter informação factual, mas é geralmente parcial ou enviesada, realçando estrategicamente determinados pontos de vista.

  • A desinformação é informação errada que as pessoas que a acreditam verdadeira partilham sem intenção de enganar. A desinformação pode surgir de mal-entendidos, rumores ou investigação inadequada. 

  • As notícias falsas são notícias intencionalmente concebidas, falsas ou exageradas, para enganar as pessoas, criar confusão ou promover agendas ocultas. As notícias falsas são frequentemente apresentadas de forma a imitar o jornalismo real.

Todos estes fenómenos podem polarizar a opinião pública e até promover extremismo violento e discurso de ódio.

Como estudantes passam uma parte significativa do seu tempo a ver televisão, a jogar online, a conversar, a escrever blogues, a ouvir música, a publicar fotografias de si próprios/as e a procurar outras pessoas com quem comunicar online, dependem fortemente da informação que circula online para o seu conhecimento do mundo e para a forma como percecionam a realidade. Sendo pessoas jovens, são particularmente vulneráveis à propaganda, à desinformação e às notícias falsas.

Para prevenir estas situações, é vital que as escolas ofereçam a estudantes uma educação sólida em literacia mediática e informacional, como parte do currículo. Docentes devem estar bem formados/as nesta área, para capacitar estudantes com as competências necessárias para compreender e avaliar criticamente a informação transmitida por todas as formas de média.